JANEIRO 2010
AFTAS: PREVENÇÃO E TRATAMENTO

Dra. Eleonora Morais*

A afta (ou estomatite aftosa), encontra-se entre as lesões inflamatórias mais comummente encontradas na mucosa oral. De facto, estima-se que 66% da população mundial seja afectada por episódios, mais ou menos frequentes, de aftas. Em algumas pessoas, chega mesmo a ser uma condição quase contínua.

Com um pico de incidência na puberdade (altura em que, por norma, ocorre o primeiro episódio) e na idade adulta jovem, a estomatite aftosa tende a ser menos frequente e até desaparecer com o avançar da idade. Apresenta uma incidência maior nos indivíduos do sexo feminino.

Características:

Os episódios de estomatite aftosa caracterizam-se pelo aparecimento de úlceras que correspondem a áreas de erosão em que ocorreu o rompimento do tecido epitelial e consequente exposição do tecido conjuntivo e respectivas terminações nervosas. As lesões fazem-se acompanhar de uma reacção inflamatória de intensidade ligeira a moderada associada a dor e restringem-se, por norma, à mucosa oral não queratinizada. São consideradas feridas limpas e não são contagiosas.

Numa fase inicial, a afta apresenta-se sob a forma de uma auréola vermelha onde se desenvolve a úlcera que, num estadio mais avançado, assume a sua morfologia característica: centro branco ou amarelado rodeado por um halo vermelho. Podem aparecer isoladamente ou em grupos.

De acordo com o seu tamanho e profundidade podemos ter as aftas menores - geralmente não têm mais do que 1cm de diâmetro, não são muito dolorosas e curam-se rapidamente em 3 a 14 dias sem deixar cicatriz,  e as aftas maiores que têm mais do que 1cm de diâmetro, são mais profundas e dolorosas do que as anteriores e levam entre 3 a 6 semanas a desaparecer podendo deixar cicatriz.

Causas:

Ainda que as características clínicas da estomatite aftosa estejam bem definidas, a sua etiologia e patogénese precisas permanecem pouco claras. Trata-se de uma condição multifactorial, sendo que a provável destruição do epitélio pelo sistema imune é um factor comum na patogenese da doença. Depois, existem factores de risco associados ao hospedeiro e ao seu ambiente, entre os quais se destacam:

- Factores genéticos – alguns doentes evidenciam uma história familiar de estomatite aftosa e existe uma correlação bastante elevada nos gémeos verdadeiros;

 - Deficiências em determinados elementos – ferro, ácido fólico,vitaminas B6 e B12;

- Doença pré-existente – doença de Crohn, doença celíaca, lúpus eritematoso sistémico, doença de Behçet, imunodeficiências primárias e secundárias como a infecção pelo VIH, colite ulcerosa;

- Trauma da mucosa oral;

- Alergia ou sensibilidade a determinados alimentos, nomeadamente alimentos ácidos, salgados, picantes, álcool, citrinos, bebidas com gás, doces, chocolate, nozes, tomates etc;

-Alguns medicamentos, como os anti-inflamatórios não esteroídes (ex. ibuprofeno, nimesulida, diclofenac… associados a uma utilização abusiva) e os beta-bloqueadores como o atenolol;

- Stress;

- Dentífricos  com laurilsulfato e sódio;

- Alterações hormonais.

Tratamento:

O tratamento das aftas é não específico e visa, essencialmente, o alívio dos sintomas (dor e ardor), manutenção da função da mucosa através da supressão da reacção inflamatória, a diminuição do tempo de cura  assim como a sua profilaxia.

Por norma, as aftas vulgares, não complicadas e não associadas a uma doença base, respondem favoravelmente aos tratamentos tópicos, que podem incluir:

- Anti-inflamatórios;

- Anestésicos -  apenas promovem o alívio da dor;

- Antissépticos – Por exemplo, a clorohexidina, triclosan, peróxido de hidrogénio diluído, além de manterem a cavidade oral mais limpa, ajudam a reduzir a inflamação e aceleram a cura;

- Adjuvantes da cicatrização, presentes em diversas formulações;

- Sucralfato -  ao aderir à mucosa forma uma barreira que protege a lesão dos alimentos e bebidas;

O tratamento oral com recurso a uma série de agentes que incluem corticosteroides, imunomoduladores entre outros, justifica-se apenas em casos severos, que requerem a observação obrigatória por parte do médico. Quando existe uma doença associada, é necessário o seu tratamento ou controlo. Em caso de carência de ferro, ácido fólico ou vitaminas B6 e B12, o suplemento apropriado pode ajudar.

Prevenção:

Algumas medidas simples ajudam na prevenção do aparecimento de aftas:

- Evitar tudo o que possa causar trauma, ainda que pequeno, na mucosa oral, como por exemplo escovas dos dentes duras;

- Evitar dentífricos que contenham laurilsulfato e sódio – em caso de propensão para o aparecimento de aftas;

- Reparar qualquer superfície irregular dos dentes;

- Evitar os alimentos suspeitos; manter um diário da alimentação pode ajudar a estabelecer uma relação de causa-efeito;

- Em caso de carência de ferro, ácido fólico ou vitaminas B6 e B12, tomar os suplementos adequados;

- Devido às alterações hormonais experimentadas, a fase pré-menstrual é, em alguns casos, propícia ao aparecimento de aftas, a toma de contraceptivos orais pode ser útil, estando sempre dependente de uma avaliação médica prévia;

Bibliografia:

Current Concepts in the Treatment of Recurrent Aphthous Stomatitis, A. Altenburg, MD; C.C. Zouboulis, MD, 2008

Aphthous Stomatitis, Jeffrey M Casiglia, DMD, DMSs; Ginat W Mirowski, MD, DMD; Christy L Nebesio, MD, 2009

Sites Consultados:

www.medscape.com

* Farmacêutica e colaboradora da Farmácia do Caniço 


 


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