ABRIL 2013
DA SUBNUTRIÇÃO À OBESIDADE
Dra. Mónica Faria – Nutricionista
monicaftf@gmail.com  

Será a obesidade um problema exclusivo dos países desenvolvidos, e a subnutrição o principal flagelo alimentar nos países em desenvolvimento? Esta histórica associação, apesar de percentualmente correta, tem vindo a modificar-se de forma significativa nos últimos anos.

Com efeito, a percentagem de população obesa residente em países em desenvolvimento tem vindo a aumentar de forma gradual, mas o que à primeira vista poderia ser um indicador positivo - pois significaria que essas populações têm agora um melhor acesso a quantidades de bens alimentares – revela uma questão pertinente e maior: a qualidade desses alimentos.

O simples facto de uma pessoa ter acesso a uma vasta quantidade de alimentos, não significa necessariamente que estes sejam os melhores para a sua alimentação e satisfação das suas necessidades nutricionais.

Olhando em pormenor para este fenómeno, ao mesmo tempo que estes países prosseguem o seu caminho de industrialização, a população rural começa a migrar para os grandes centros urbanos, abandonando empregos que requeriam atividade física considerável, por empregos no sector terciário, tendencialmente mais sedentários, o que por si só, já acarreta uma série de consequências nefastas para a saúde.

Por outro lado, o crescimento do poder económico destes países implica um aumento da importação de bens alimentares dos países industrializados. Proliferam no mercado diversas opções alimentares desequilibradas nutricionalmente, a preços acessíveis e compatíveis com os rendimentos desta população em mutação. 

O ponto crítico aqui, é verificar que a larga maioria destes bens alimentares são nutricionalmente pobres, sendo ricos em gorduras, açúcares e desfasados da necessidade de obtenção de um padrão alimentar equilibrado e saudável.

O cidadão que, no passado, enfrentava um problema de subnutrição e que agora se vê confrontado com um rendimento que lhe permite acesso a novos bens alimentares, associa um facto ao outro, sendo esta situação potenciada por outros fatores sociais e psicológicos: por um lado, o consumo de bens provenientes dos países “desenvolvidos” confere a ilusão de “desenvolvimento”, “progresso” e “bem-estar”, por outro, o novo estilo de vida sedentário, potenciado pelo stress e os horários de refeição curtos e desfasados, estimula ao consumo destes alimentos, seja em cadeias alimentares de “fast food”, ou compra de bens alimentares congelados, pré-cozinhados e similares, os quais são nutricionalmente inferiores aos que poderiam ser adquiridos nos típicos mercados locais (frescos).

Temos, assim, um desequilíbrio alarmante, fruto do próprio desenvolvimento: à medida que estes países vão adquirindo um novo status quo semelhante ao dos países desenvolvidos, além dos benefícios que são obtidos por esta evolução, os malefícios típicos também são “importados”.

Comparando um cidadão obeso e um cidadão subnutrido destes países, além da óbvia diferença da quantidade de ingestão de bens alimentares e de acesso aos mesmos, constata-se que ambos apresentam carências semelhantes, nomeadamente, falta de vitaminas essenciais que conduzem ao aparecimento de doenças crónicas, anemia, doenças e acidentes cardiovasculares e diabetes.

Neste ponto, salientem-se as previsões que apontam para a duplicação da população mundial afetada pela diabetes relacionada com a obesidade até o ano de 2025 – cerca de 300 milhões de indivíduos – sendo que três quartos destes serão residentes em países em desenvolvimento.

A forma de combater este problema passa pelo acesso à informação, especialmente das autoridades locais e centros de decisão. Sendo certo que os dados necessários são insuficientes nestes países, as autoridades dos mesmos não podem ignorar o problema da obesidade e associá-lo de forma persistente a um problema dos países desenvolvidos.

Também é necessário que os bens alimentares disponibilizados às populações sejam nutritivos, devendo existir uma maior ligação entre produtores, distribuidores, nutricionistas e decisores da política alimentar nestas regiões. 

Com isto, não se pretende afirmar que a subnutrição é um problema que deva ser esquecido, antes pelo contrário, continua a ser o maior flagelo junto da população mundial, mas não devemos esquecer que tão ou mais importante que o consumo de bens alimentares em si e o acesso a estes, é que os mesmos sejam saudáveis, caso contrário, entra-se num ciclo vicioso de problemas nutricionais.


 


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