ABRIL 2012
GRAVIDEZ ECTÓPICA
A gravidez ectópica ocorre quando o desenvolvimento do feto tem lugar fora do útero, sendo uma situação de risco para a mulher. Por esse motivo, é importante a sua detecção o mais cedo possível, explica em entrevista o Dr. Joaquim Vieira, médico ginecologista, que fala também dos sinais de alarme e dos principais factores de risco.

Em que consiste a gravidez ectópica?
A gravidez ectópica ocorre quando existe uma implantação do embrião e o seu desenvolvimento durante algum tempo, fora da cavidade do útero. Em cerca de 90 por cento dos casos, a gravidez ectópica tem lugar numa das Trompas de Falópio, mas esta implantação também pode acontecer nos ovários ou até na cavidade abdominal. Estas localizações não estão preparadas para o desenvolvimento de uma gravidez, pelo que ao fim de cerca de 10 semanas, dá-se uma ruptura, ocorrendo o chamado coágulo agudo, em cujo caso terá forçosamente de haver uma intervenção cirúrgica. Em termos gerais, estima-se que entre 1,5% e 2% de todas as gravidezes são ectópicas. No caso específico da Região Autónoma da Madeira, tivemos 18 gravidezes ectópicas diagnosticadas no decorrer do ano de 2011. 

Quando a gravidez ectópica é detectada, é já numa situação de risco elevado para a mulher?
Muitas vezes, sim. Mas actualmente, fazemos uma ecografia precoce – por volta das oito semanas – e uma das grandes vantagens é excluir as gravidezes ectópicas, muitas vezes detectando-as antes de haver a ruptura. Sublinho, no entanto, que quando a gravidez ectópica é detectada precocemente, poderá ser feita uma cirurgia menos agressiva, através da laparoscopia, e em alguns casos, até poderá ser feito o tratamento sem recurso a intervenção cirúrgica.

Que factores de risco aparecem associados à gravidez ectópica?
Entre os factores de risco podemos encontrar a idade mais avançada - neste caso específico, podemos considerar que a partir dos 30 anos existe um aumento do risco. Outros factores de risco incluem a existência de cirurgias e de infecções abdominais anteriores e a existência de patologia nas trompas. Nas situações em que existe infertilidade, o risco também é um pouco mais elevado. Em relação ao estilo de vida, o tabaco e outras situações menos saudáveis, como o alcoolismo, também poderão ter alguma influência. Mas as infecções abdominais normalmente estão mais relacionadas com estilos de vida em que existem muitos parceiros sexuais, uma vez que dessa forma aumenta a exposição a possíveis infecções de que possam ser portadores. Isto poderá afectar a morfologia das trompas, levando a que o óvulo tenha mais dificuldade em atravessar a trompa e fazendo com que se desenvolva antes de chegar ao útero. A fecundação do óvulo dá-se na trompa e, se esta não tiver nenhuma patologia, este irá fazer um percurso de sete dias, em que irá atravessar a trompa, até implantar-se dentro do útero. Se o óvulo encontra a trompa alterada, em vez de demorar estes sete dias, poderá demorar mais tempo. Durante este percurso, o óvulo vai-se desenvolvendo, ou seja, as células vão-se dividindo e o óvulo já fecundado começa a aumentar de tamanho, o que leva a que, ao encontrar alguma dificuldade relacionada com uma alteração morfológica, não consiga continuar o seu percurso e acabe por se implantar na própria trompa, que não está preparada para o desenvolvimento de uma gravidez.

Quais os principais sintomas e sinais de alarme?
Quando a mulher tem sintomas de gravidez, com falta de menstruação e náuseas, por exemplo, e comece a perder sangue, deve dirigir-se a um especialista, para confirmar se há gravidez. Quando ocorre ruptura da trompa, com um quadro de abdómen agudo, há uma dor bastante forte. Neste caso, a mulher deverá dirigir-se imediatamente ao serviço de urgência do hospital. A ruptura leva a uma hemorragia interna, que na maior parte das vezes é uma hemorragia abundante, sendo necessário efectuar uma intervenção cirúrgica de imediato. O diagnóstico precoce da gravidez ectópica é possível quando a mulher tem testes de gravidez positivos, faz uma ecografia e não é encontrado o embrião dentro da cavidade uterina.

Há alguma relação entre o aborto e a gravidez ectópica?
Não é muito frequente o aborto de repetição e a gravidez ectópica andarem associados. No entanto, é de sublinhar que nos casos em que existe um aborto de repetição, poderá eventualmente vir a ocorrer alguma alteração morfológica ao nível das trompas, o que já seria um factor que aumentaria o risco de uma gravidez ectópica. 

A mulher que tem uma gravidez ectópica está em maior risco de vir a ter outra no futuro?
Sim, está em maior risco de ter outra gravidez ectópica, pelo que deve sempre estar atenta aos sinais de alarme e consultar imediatamente o especialista sempre que tenha suspeitas de estar grávida. Aliás, a trompa onde ocorre a gravidez ectópica, geralmente fica destruída, pelo que, normalmente, no acto cirúrgico é retirada, de maneira a reduzir o risco futuro para a mulher. De resto, uma das vantagens de fazer uma ecografia muito precoce, é precisamente o de permitir diagnosticar a tempo os casos de gravidez ectópica, agindo depois em conformidade.

O tratamento é sempre cirúrgico?
Nem sempre, uma vez que se a gravidez ectópica for detectada muito precocemente, poderá ser feito apenas um tratamento médico não invasivo, com base medicamentosa. Sempre que possível, tentamos que o tratamento se faça sem o recurso à intervenção cirúrgica, uma vez que todas as cirurgias incorporam sempre algum grau de risco para o paciente. Mas nos casos em que verificamos que existe risco de ruptura, temos mesmo de avançar muito rapidamente para a cirurgia, no sentido de conseguimos evitar que haja hemorragia interna.

O apoio psicológico poderá ser importante para as mulheres que passam por esta situação?
As gravidezes ectópicas podem deixar sequelas psicológicas, porque muitas vezes estamos a falar de gravidezes que eram desejadas e que tinham sido planeadas, pelo que esta poderá ser uma experiência traumatizante por dois lados – primeiramente, porque o embrião não se desenvolve, não chegando aquele bebé que é desejado, e depois porque nos casos em que há ruptura com hemorragia, é preciso haver internamento de urgência e consequente intervenção cirúrgica. Portanto, é uma situação compreensivelmente delicada, especialmente para uma mulher que queria muito ser mãe. Nestes casos, poderá ser benéfico receber algum tipo de apoio psicológico, sem dúvida.


 


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