JULHO 2011
A CRIANÇA E A NOSSA RESPONSABILIDADE NO SEU DESENVOLVIMENTO
Enf.ª Vera Lúcia Pestana e Enf.ª Márcia Sousa

Quando se fala de desenvolvimento infantil, fala-se de um processo físico normal e progressivo, de acordo com a idade aproximada e estádios de crescimento e desenvolvimento, desde o nascimento, através da infância até à idade adulta. Naturalmente, as crianças seguem padrões de desenvolvimento previsíveis, mas estes não são lineares nem contínuos. Surgem momentos regressivos, pausas e surtos evolutivos.

Vários factores influenciam o desenvolvimento infantil, sendo que para o mesmo contribuem as dinâmicas entre os factores bio-anatómicos, psicológicos, emocionais e sociais. Não podemos, pois, avaliar o desenvolvimento de uma criança sem efectivamente analisar todos os contextos envolventes.

Existem crianças que em determinadas áreas têm maiores capacidades, resultado dos estímulos recebidos e das energias canalizadas para essa área. Por outro lado, porque cada criança tem o seu próprio ritmo, não poderemos esperar que todas alcancem o mesmo patamar de desenvolvimento.

Por vezes, na escola, atribui-se as capacidades de linguagem como um indicador de inteligência e desenvolvimento. Contudo, não será certamente isso que definirá as capacidades intelectuais e emocionais de uma criança.

É fundamental que se olhe verdadeiramente para cada criança, além dos contextos imediatos, respeitando a sua individualidade e focalizando-nos nas suas capacidades pessoais. Fazê-lo, é potenciar aquilo que elas têm de melhor, ajudando-as a brilhar nessas áreas e a voar em outras que, à partida, não eram tão evidentes.

Neste sentido, importa reforçar que é, efectivamente, no seio familiar que ocorre a maioria das aprendizagens na vida de uma criança. São os pais que representam a primeira e mais importante escola para a aprendizagem dos valores, sentido de justiça, responsabilidade, solidariedade e regras de conduta. São eles os principais promotores da maioria das suas capacidades, sendo que é junto deles que a criança irá encontrar os ingredientes fundamentais para o seu desenvolvimento.
Afectos como fonte de desenvolvimento
Falaremos do mais vital desses ingredientes: os afectos. De facto, a qualidade das interacções afectivas com o bebé será, desde logo, responsável por um número surpreendentemente grande de capacidades mentais vitais, constituindo as bases do desenvolvimento intelectual e social da criança.

A troca de gestos afectivos e emocionais irá ajudá-las a compreender o mundo à sua volta, a formar as capacidades de segurança, confiança, empatia, solidariedade, e a noção do «eu».

Pode ainda dizer-se que, a forma como as crianças se sentem queridas, aconchegadas e amadas, irá definir quem serão, o quanto gostam de si e o quanto serão capazes de gostar dos outros.

Para que se favoreça uma interacção afectiva segura, confiante e tranquila com os filhos, é importante que os pais tenham tempo para os filhos. É preciso que desde cedo, os pais se apaixonem e deliciem com o bebé. É fundamental que lhes peguem ao colo, sintam o prazer de os acarinhar, massajar, de envolver num abraço, de sentir-se como parte dele e interagir numa cumplicidade afectiva que respeita a iniciativa, o ritmo e as suas diferenças. Uma relação afectiva emocional e duradoira com um bebé, sem dúvida leva a uma melhor interpretação e consequente resposta aos seus sinais. Desta forma, à medida que o bebé cresce, os laços afectivos irão solidificar-se em raízes de entendimento, segurança, confiança e amor acompanhando-os toda uma vida.
 
Poderemos dizer que esta é a maior chave para um desenvolvimento futuro saudável. Infelizmente, o panorama actual revela que, são cada vez mais as famílias que têm pouco tempo livre para os filhos, devido ao facto de ambos os pais trabalharem para ajudar no orçamento familiar. Paralelamente, muitas vezes, quando os pais têm possibilidade de estar com os filhos, substituem essa interacção pelo ecrã do televisor. As crianças, particularmente os bebés, não deveriam ser deixadas sozinhas nos períodos em que estão despertas. Deveriam ter a presença de uma pessoa significativa para interagir com ela e descobrir quanto essa interacção pode ser maravilhosa.

Contudo, em situações em que ambos os pais se vêm limitados pelo tempo laboral, é importante transmitir-lhes que estes têm o poder de ser criativos e tornar cada momento que passam com os filhos um momento único e rico em afectos. Mais que a quantidade, importa a qualidade do tempo com que verdadeiramente se está.

Os pais por vezes, pensam que é preciso dar aos filhos o mundo, mas muitas vezes, esquecem-se que para eles o mundo, são eles mesmos.

Acreditem os pais que, não será certamente a versão mais recente de uma consola de jogos ou os brinquedos mais fascinantes que fazem as crianças mais felizes. Aquilo que elas mais precisam, em primeiro lugar, é de se sentirem amadas, sendo que em segundo lugar necessitam de alguém que imponha limites às suas vontades e que ao mesmo tempo as faça sentir protegidas e seguras.

Reconhecemos que, em muitos aspectos, temos efectivamente de repensar a forma como educamos as crianças. As práticas permissíveis e compensatórias acabam por induzir a comportamentos menos assertivos e fazem com que muitas crianças cresçam insatisfeitas, inseguras, sendo que pequenas pedras no caminho poderão ser o suficiente para as derrubar. E a verdade é que, algumas caem e depois não sabem como se levantar.

É em pequenas coisas que, desde logo, podemos ajudar as crianças a lidar com a frustração, dando-lhes oportunidade para encontrar soluções perante as adversidades que encontram. Vejamos o exemplo de uma criança que está a aprender a andar: quando ela se desequilibra e cai, é importante os pais darem-lhe espaço para que seja ela a encontrar a melhor forma de se levantar sozinha, incentivando-a a elogiando-a (ao invés de irem a correr para levantá-la). Esta forma de actuar para com as crianças, não deverá só ser exemplo em episódios semelhantes a este, mas em muitos outros do dia-a-dia. Se assim fizermos, estaremos a dar às crianças uma oportunidade de descobrir o sucesso perante as dificuldades. Por outro lado, se os pais se limitarem a fazer tudo por elas, posteriormente, não saberão como ultrapassar as dificuldades que encontrarem.

Muitas vezes, os filhos não precisam da ajuda dos pais, basta-lhes o seu apoio. Neste sentido, importa dizer que, ao mesmo tempo que é importante os pais partilharem um espaço seguro com os filhos, fazendo com que estes se sintam seguros, também é importante irem gradualmente aumentando esse espaço, de maneira a que eles possam aprender a fluir positivamente com um mundo lá fora, que constantemente lhes exige novas adaptações. Não tenham dúvidas os pais: as suas palavras de incentivo e encorajamento, os seus olhares presentes e o abraço amigo irão acompanhar os vossos filhos toda uma vida, fazendo com que esta seja vivida de uma forma mais confiante, segura e harmoniosa.


 


seara.com
 
2009 - Farm´cia Caniço
Verified by visa
Saphety
Paypal