SETEMBRO 2010
STRESS PÓS-TRAUMÁTICO: QUANDO O TRAUMA PARECE NÃO TER FIM
Dra. Cláudia Florença - Psicóloga
claudia.florenca@gmail.com
 
A Perturbação Stress Pós-Traumático (PSPT) é um distúrbio de ansiedade que pode surgir após sermos expostos a um acontecimento traumático que envolve o risco de vida, graves ferimentos ou qualquer outra ameaça à nossa integridade física. Diversos eventos podem conduzir a esta perturbação, nomeadamente desastres naturais (por exemplo: terramoto, incêndios florestais, tempestades), situação de guerra, acidente de carro/avião, sequestro, assalto violento, violação, abuso físico ou sexual, procedimentos médicos, entre outros.

A PSPT pode afectar as pessoas que vivenciaram a situação traumática e também aquelas que apenas a testemunharam. Os indivíduos que apoiam as vítimas durante ou após o acontecimento traumático (por exemplo: bombeiros, polícias, trabalhadores diversos), bem como as famílias e amigos das vítimas, podem vir a sofrer de Stress Pós-Traumático.

PSPT: normal ou patológica?
Quando se vive um trauma, a maioria das pessoas experiencia alguns sintomas de PSPT, sendo esta uma resposta considerada normal e saudável. Estes sintomas perduram alguns dias ou semanas, mas tendem a atenuar gradualmente, uma vez que a pessoa vai compreendendo o que se passou e “digere” as suas emoções. Na PSPT, os sintomas não diminuem e a pessoa não se sente melhor com o passar do tempo, pois existem dificuldades em lidar com o trauma.

Sintomas da Perturbação Stress Pós-Traumático
Os sintomas da PSPT podem surgir repentina ou gradualmente, existindo casos em que os mesmos ficam “adormecidos”. Certos barulhos, imagens, palavras ou cheiros são, por vezes, suficientes para despoletar memórias sobre o evento traumático (por exemplo: cenas de guerra num filme ou o barulho de um helicóptero podem despoletar sintomas em antigos combatentes, passados 30 anos da situação de guerra). Os sintomas da PSPT são:

1)    Re-experienciar o evento traumático:
- Ter recordações aflitivas e recorrentes da situação traumática;
- Agir ou sentir-se como se o trauma estivesse ocorrendo novamente (“flashbacks”);
- Pesadelos recorrentes;
- Stress e reacções físicas intensas ao recordar o trauma (por exemplo: batimento cardíaco acelerado, respiração ofegante, náuseas, tensão muscular, transpiração excessiva).

2)    Evitamento e “anestesia” emocional:
- Esforços para evitar actividades, lugares, pensamentos ou sentimentos associados ao trauma;
- Incapacidade de recordar algum aspecto importante do trauma;
- Perda de interesse por actividades significativas e pela vida em geral;
- Sentir-se desligado dos outros e embotamento emocional (muito parado, pouco contacto ocular, “emoções apagadas”);
- Sentimento de um futuro limitado (não espera ter uma vida normal, como casar e ter uma carreira).

3)    Activação aumentada e persistente:
- Insónias;
- Irritabilidade ou acessos de cólera (raiva);
- Dificuldades de concentração;
- Hipervigilância (sempre em “alerta vermelho”);
- Sentir-se nervoso e assustadiço.

4)    Outros sintomas:
- Sentimentos de culpa, vergonha, desconfiança;
- Abuso de substâncias (drogas ilícitas, álcool, tabaco);
- Depressão, desesperança, pensamentos suicidas;
- Dores de cabeça, problemas de estômago, dores no peito.

Procurar ajuda
Quanto mais cedo procurar ajuda, melhor o prognóstico. É natural que queiramos evitar as memórias e os pensamentos dolorosos e, ao adiar a procura de ajuda, a PSPT pode agravar-se. O Stress Pós-Traumático não é um sinal de fraqueza e, com o tratamento adequado, torna-se mais fácil atenuar o sofrimento.

Tratamento da Perturbação Stress Pós-Traumático
O objectivo é o alívio dos sintomas, ajudando o indivíduo a lidar com o trauma experienciado. O profissional de saúde especializado (por exemplo: psicólogo, psiquiatra) confirma se a pessoa possui PSPT, e ajuda-a a recordar e a processar as emoções e sensações tidas durante a situação traumática (assegurando que não é traumatizada por essas recordações). Procura-se restaurar o sentido de controlo e diminuir o poder que o trauma tem sobre a vida da pessoa. As terapias cognitivo-comportamentais, a terapia familiar e a medicação são consideradas eficazes.

Se um familiar ou amigo tem sinais de PSPT
- Incentive-o a procurar ajuda especializada;
- Aceite que as melhorias requerem tempo e mostre-se disponível para ouvi-lo a falar sobre o trauma;
- Não o pressione a falar sobre o sucedido, garantindo-lhe simplesmente que estará disponível quando ele desejar conversar;
- Não encare os sintomas de forma pessoal, pois estes podem não estar relacionados consigo, e sim com o que se passou;
- Tente antecipar e preparar-se para os estímulos que fazem a pessoa recordar o trauma (por exemplo: datas especiais, barulhos, pessoas, lugares), oferecendo-lhe apoio nesses momentos.

É possível voltar a viver o presente, e não ficar mais paralisado por uma situação passada. O trauma pode ter um fim.

Bibliografia
Associação Americana de Psiquiatria, DSM-IV-TR (2002). Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais. Lisboa: Climepsi editores.
Fernandes, E. & Maia, A. (2000). Quando a guerra parece não ter fim: uma intervenção psicoterapêutica em Perturbação Stress Pós-Traumático de Guerra. Revista Internacional de Psicologia Clínica e da Saúde, vol. 1, n.º 2, 379-387.
Post Traumatic Stress: Self Help Guide. (n.d.). Obtido a Agosto, 15, 2010, de http://www.moodjuice.scot.nhs.uk/posttrauma.asp
Sales, Luisa; Guardado Pereira, Fernando; Dias, Aida (2006), "PTSD em ex-combatentes – Dados de Investigação em Portugal", in Paulo José Costa, Lopes Pires, et al (org.), Stresse Pós- Traumático: Modelos Abordagens e Práticas. Leiria: Editorial Diferença, 91-100.
Serra, A. V. (2003). O distúrbio de stress pós-traumático. Coimbra: Vale & Vale.


 


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