AGOSTO 2010
PROBLEMAS NA PRÓSTATA
Dra. Eleonora Morais – Farmacêutica*
eleonora.morais@farmaciadocanico.pt

A próstata é uma glândula exócrina integrando o sistema reprodutor masculino. Situa-se abaixo da bexiga envolvendo a uretra e pode ser sentida por toque rectal. Tem como função a produção e secreção de um fluido incolor, ligeiramente alcalino, que constitui 10% a 30% do fluido seminal. A próstata é regulada pela dihidrotestosterona, hormona que resulta da conversão da testosterona pela enzima 5α-reductase.

A Hiperplasia Benigna da Próstata (HBP) encontra-se entre as causas mais comuns responsáveis pelo aparecimento de sintomas de disfunção urinária em homens com mais de 40 anos de idade. Resulta de proliferação benigna das células epiteliais e do estroma da glândula – hiperplasia – o que se traduz num aumento do seu volume sendo que, a dado momento, tem como consequência a compressão do canal uretral, levando a uma obstrução parcial ou, nos casos mais graves, total da uretra, conduzindo ao aparecimento dos sintomas.

Aproximadamente 75% dos homens que vivem até aos 70 anos apresentam sintomas clínicos de HBP suficientemente severos para procurar assistência médica. Cerca de 90% dos octogenários têm evidência de HBP.

Está estabelecido que o desenvolvimento da doença não é influenciado por determinantes ambientais ou genéticas, embora a sua causa exacta permaneça por esclarecer. A maioria das hipóteses levantadas aponta para os processos hormonais e de envelhecimento como os principais suspeitos.

Sintomas

Os sintomas da HBP podem ser classificados em: obstructivos e irritativos.

Obstructivos:

Hesitância – a micção não é imediata. Resulta do atraso do músculo detrusor da bexiga a gerar o aumento da pressão inicial de modo a ultrapassar a resistência da uretra;
Diminuição na força do jacto – causada pela compressão da uretra;
Intermitência – o jacto não flui de modo contínuo;
Sensação de esvaziamento incompleto da bexiga – não é eliminado o volume total de urina da bexiga.

Irritativos:

Noctúria – necessidade de urinar durante a noite, interrompendo o sono – quatro a cinco vezes por noite.
Aumento da frequência urinária durante o dia.

O esvaziamento incompleto da bexiga resulta em intervalos mais curtos entre micções. Por outro lado, o tamanho aumentado da próstata leva a que a bexiga induza a resposta mictória mais frequentemente, em especial se o crescimento da próstata interferir com o seu volume. Finalmente, o aumento progressivo do volume de urina residual na bexiga leva a uma hipertrofia do músculo detrusor e consequente aumento da excitabilidade muscular, resultando numa bexiga instável.

A incontinência urinária não é um sintoma comum na HBP, embora possa estar presente quando o volume de urina residual atinge proporções tais que o esfíncter da bexiga enfraquece e permite a perda de pequenas quantidades de urina.

Progressivamente, à medida que este volume residual aumenta, a urina regressa aos ureteres, que dilatam, resultando num acumular de urina a este nível que pode progredir para dano renal e, mais tarde, para insuficiência renal. Esta situação contribui igualmente para o desconforto abdominal relatado por muitos pacientes e para infecções urinárias do tracto urinário superior frequentes.

É importante ter em consideração que alguns fármacos são responsáveis por uma retenção urinária aguda, independentemente do tamanho da próstata. O álcool,  os anticolinérgicos, os α-adrenérgicos e os neurolépticos têm vindo a ser associados com retenção urinária aguda em homens com HBP. Em estádios avançados da doença, o facto do doente não urinar ao primeiro sinal de urgência pode traduzir-se por um agravamento da retenção urinária.

Diagnóstico

Regra geral, são os sintomas que levam o paciente a procurar o médico. É realizado um exame físico detalhado que inclui o toque rectal. Este exame consiste no toque via rectal da próstata, servindo para avaliar o seu tamanho, a sua forma, consistência e nodosidade. O toque rectal constitui também, em conjunto com a medição do PSA (Antigénio Específico da Próstata) um bom meio de rastreio do cancro da próstata pelo que a sua realização deve ser feita ainda que não existam sintomas.

São solicitados exames laboratoriais que visam avaliar a função renal, a presença de infecção e a quantificação do PSA. No entanto, a interpretação do seu valor não pode ser feita isoladamente dada a sua falta de especificidade – também se encontra aumentado em outras situações que não a HBP ou o cancro da próstata. Outro tipo de exames podem ser requeridos, como o ultrassom em caso de suspeita de hidronefrose e para despiste de situações malignas.

O diagnóstico da HBP é feito tendo em conta os sintomas relatados pelo doente, a exclusão de outras situações clínicas responsáveis pelos mesmos sintomas, o resultado do exame físico e os achados laboratoriais, numa abordagem integrada.

Tratamento

O tratamento da HBP depende da severidade da doença. Casos de retenção urinária refractária, infecções recorrentes, dano renal, falência da terapêutica farmacológica, insuficiência renal obstrutiva, podem ter indicação para cirurgia.

No entanto, a terapêutica farmacológica é a mais utilizada e inclui os antagonistas dos receptores adrenérgicos-α2 (como por exemplo a tamsulosina, alfuzosina, entre outros), os inibidores da 5α-redutase (como por exemplo a finasterida,  a dutasterida, entre outros) e os anti-androgénios (flutamida). Os fármacos prescritos visam melhorar os sintomas (contrariando a obstrução), diminuir o volume da próstata e travar a progressão da doença.

Individualmente, o doente pode adoptar alguns comportamentos que melhoram a sua qualidade de vida. Como por exemplo, evitar a ingestão de líquidos à noite – o que vai diminuir a noctúria, evitar o álcool e a cafeína. Procurar urinar ao primeiro sinal de urgência, não adiar a micção. Informar o seu urologista de toda a medicação que faz - a substituição de algum fármaco pode ser pertinente. Informar o seu farmacêutico da doença aquando da aquisição de medicamentos, sejam estes de prescrição obrigatória ou de venda livre.

*Colaboradora da Farmácia do Caniço desde 2007.

Bibliografia

Berry SJ et al. The development of human benign prostatic hyperplasia with age, J Urol 1984;132:474
Naraya P. Neoplasms of the prostate. In: Tanago EA et al., eds. Smith’s General Urology. Norwalk: Appleton&Lange; 1992:378
Mary Anne Koda-Kimble et al., Applied Therapeutics – The clinical use of drugs. Wolters Kluwer; 2008:101-15




 


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