OUTUBRO 2009
CONSTIPAÇÃO VS. GRIPE: SAIBA DISTINGUIR OS SINTOMAS

Dra. Sónia Gonçalves*

A constipação e a gripe são duas doenças facilmente confundíveis. Aprender as semelhanças e as diferenças entre ambas poderá permitir uma melhor prevenção e tratamento adequado.

A Constipação é uma doença de duração limitada, que normalmente não necessita de avaliação médica, sendo passível de indicação farmacêutica. Ela pode aparecer ao longo de todo o ano, tendo prevalência nas estações mais frias (Outono e Inverno). As crianças apresentam vários episódios por ano, que tendem a reduzir com a idade, até cerca de três episódios anuais no adulto. É uma infecção viral, maioritariamente causada pelo vírus denominado rinovírus. Este apresenta muitos subtipos, o que torna difícil o seu controlo pelo sistema imunitário.

O rinovírus origina facilmente pequenos surtos. Contribui para tal o facto de ele sobreviver até 3 horas fora da mucosa nasal. Assim, ele pode ser transmitido por contacto directo com uma pessoa contaminada, não sendo o beijo, no entanto, uma boa via de transmissão, pois a concentração do vírus é baixa na cavidade oral. A via aérea (tosse e espirros) é outra forma de transmissão, assim como o contacto com secreções contaminadas que possam ser inoculadas via mão-nariz, -olhos ou -boca.

As crianças são responsáveis pela transmissão de 75% das infecções. A transmissão é facilitada em ambientes pouco ventilados, poluídos e muito povoados ou muito frequentados por crianças. Uma pessoa com alergias, sistema imunitário deficiente, ou sujeita a stress tem maior predisposição para o contágio. A exposição ao frio ou à humidade não aumenta a susceptibilidade para uma constipação.

Os sintomas desta doença surgem gradualmente, habitualmente entre dois a quatro dias após o contacto com o vírus. Eles são: garganta irritada com pico ao segundo e terceiro dias, espirros frequentes, pingo no nariz alternado com congestão nasal (secreções inicialmente límpidas, tornando-se progressivamente opacas e purulentas), rouquidão ou afonia, alguma febre, mas baixa (até 38,5oC, em especial nas crianças), algumas dores de cabeça, algum mal-estar geral, aparecimento de alguma tosse seca, passando depois a ter expectoração associada. Esta sintomatologia tende a durar três a quatro dias, podendo prolongar-se durante sete a 13 dias. As complicações mais comuns que advêm passam pelo aparecimento de sinusite e de infecção no ouvido médio.

Para prevenir a constipação, deverão ser evitados os factores predisponentes anteriormente citados e as seguintes medidas deverão ser tomadas: as mãos deverão ser lavadas frequentemente, e na impossibilidade da sua lavagem deverão ser utilizadas soluções de desinfecção; deverá ser evitado o contacto das mãos com os olhos, nariz e boca; ao espirrar ou tossir deverá ser protegida a boca com um lenço de papel ou com o antebraço (não utilizar as mãos); deverão ser usados lenços de papel de utilização única, sendo depois descartados num saco fechado; não deverão ser partilhados objectos com pessoas constipadas; as crianças constipadas não deverão ir à escola para não desenvolverem uma infecção secundária nem contagiarem as outras crianças e adultos.

A terapêutica da constipação inclui medidas não-farmacológicas direccionadas ao controlo dos sintomas (congestão nasal, tosse, garganta irritada, febre e dores de cabeça). Elas passam por ingerir muitos líquidos, evitar bebidas alcoólicas, cafeína e tabaco; humidificar o ambiente (Tª 18-20oC; humidade 60-80%), evitar assoar-se com demasiada força (evita disseminação de infecção para o ouvido), fazer inalações de água salgada, gargarejar com água salgada morna várias vezes ao dia ou beber chá de limão com mel, chupar rebuçados emolientes, evitar esforçar a voz, tomar banho com água tépida, utilizar roupa ligeira, aplicar compressas frias na cabeça, repousar.

As medidas farmacológicas indicadas consistem na administração de substâncias direccionadas igualmente aos sintomas: anti-histamínicos, descongestionantes nasais, antitússicos, mucolíticos e expectorantes, broncodilatadores, anti-inflamatórios não-esteróides, analgésicos e anti-piréticos.

A gripe, por sua vez, é uma doença de aparecimento abrupto, facilmente disseminada pela comunidade, com pico em duas a três semanas, que predomina no Outono e Inverno. Ao contrário da constipação, esta necessita de orientação médica.

Trata-se de uma infecção viral do tracto respiratório, de duração limitada, que pode afectar parte ou todas as vias aéreas, especialmente as vias aéreas inferiores (pulmões). O vírus responsável (vírus Influenza) apresenta 3 serotipos (A, B e C). Os vírus influenza B e C infectam, basicamente, seres humanos. O vírus influenza B é capaz de causar epidemias (atinge uma comunidade ou região, com uma frequência superior a expectativa normal), enquanto o C não tem potencial epidémico e, em geral, causa doenças de menor gravidade. Já o vírus A é o mais patogénico para o homem, sendo capaz de infectar também diversas espécies de animais (aves, bovinos, felinos, suínos). Este é capaz de originar epidemias ou mesmo pandemias (atinge um continente ou mesmo o mundo inteiro).

O vírus Influenza apresenta grande variabilidade genética, o que faz com que não seja possível adquirir uma imunidade definitiva contra a gripe. Essas alterações genéticas são habitualmente ligeiras, apresentando, o sistema imunitário, algum grau de protecção, por reconhecer partes do vírus que se assemelham com os vírus predominantes nos anos anteriores. No entanto, em condições favoráveis, as alterações podem ser drásticas (como quando há um grande contacto entre humanos e animais) podendo haver travessia de barreiras inter-espécies, com formação de estirpes virais muito distintas das habituais, com partes humanas e animais. Estas apresentam um alto potencial patogénico, pois o sistema imunitário leva mais tempo a identificar o vírus e a reagir contra ele. Isto é reflectido numa exacerbação dos sintomas habituais da gripe e no aparecimento de maiores complicações. É um exemplo a tão falada Gripe A.

O vírus Influenza sobrevive durante longos períodos fora do hospedeiro (horas, dias a meses, consoante as condições em que se encontra). A via de transmissão utilizada é semelhante à da constipação (contacto directo ou indirecto com gotículas de saliva e secreções nasais com inoculação via boca, nariz ou olhos) e os factores predisponentes são os mesmos.
Após contacto com o vírus, este dissemina-se no organismo, surgindo os sintomas de forma súbita passados dois a três dias. O vírus continua a disseminar-se por mais cinco a sete dias após o início dos sintomas, altura até a qual ele poderá ser transmitido a outras pessoas. A recuperação pode levar entre uma a duas semanas.

Os sintomas característicos são: febre elevada (>38,5oC), dores de cabeça intensas, intolerância à luz, dores generalizadas intensas, fadiga ou mesmo exaustão extrema, tosse frequente, espirros ocasionais, garganta inflamada, pingo no nariz e conjuntivite. As crianças podem ter também náuseas, vómitos e diarreia, mas estes sintomas são raros em adultos.
As complicações que podem surgir verificam-se a nível respiratório (bronquite, pneumonia com edema pulmonar), cardíaco, renal, hematológico ou passam pelo agravamento de doenças pré-existentes.

A terapêutica não-farmacológica é semelhante à da constipação. Da mesma forma, a terapêutica farmacológica tende a objectivar o alívio dos sintomas, a prevenção das complicações e ainda a redução da sua transmissão. Assim sendo, para o alívio dos sintomas são tomados os mesmos medicamentos que na constipação. Está indicado também, em determinadas situações, a utilização de fármacos antivirais (Amantadina, Rimantadina, Oseltamivir, Zanamivir e Ribavirina).

Anualmente são criadas vacinas baseadas em estudos que indicam as estirpes que terão prevalência nesse ano. A vacinação é outra medida preventiva que pode ser tomada por pessoas com alto risco de desenvolver complicações pós-infecção gripal: maiores de 65 anos (particularmente em comunidades); residentes ou internados em instituições prestadoras de cuidados de saúde; sem-abrigo; maiores de 6 meses, incluindo grávidas e mulheres a amamentar, que sofram de doenças crónicas cardíacas, renais, hepáticas ou pulmonares; Diabetes Mellitus ou outras doenças metabólicas; outras situações que provoquem depressão do sistema imunitário (medicação, infecção pelo VIH e cancro); crianças e adolescentes em terapêutica prolongada com salicilatos e risco de desenvolver a Síndrome de Reye após a gripe.

A vacina poderá ser tomada também por pessoas que podem transmitir o vírus a outras consideradas de alto risco ou que estejam em risco acrescido de contrair a doença, como funcionários dos serviços de saúde e outros serviços com contacto directo com pessoas de alto risco e co-habitantes (incluindo crianças maiores de 6 meses) de pessoas de alto risco.

Sumarizando, as grandes diferenças entre a Constipação e a Gripe residem na ausência, na constipação, de alguns sintomas característicos da gripe (como a febre alta (superior a 38,5oC), arrepios, dores de cabeça intensas, dores musculares intensas e cansaço extremo) e na prevenção e terapêutica (com a utilização de vacinas e anti-virais).

* Farmacêutica e colaboradora da Farmácia do Caniço desde 2009

Bibliografia

• Guia de Indicação Farmacêutica, Associação Nacional das Farmácias, 2005, Lisboa
• Terapêutica e Prevenção da Gripe, Farmacoterapia I, Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, 2006/2007, Lisboa
http://icrinstituto.org.br/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=17


 


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